Desde o início do ano, a Prefeitura de Porto Alegre, através da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), aponta que cerca de 4 mil pessoas estão em acompanhamento mensal nas oito unidades do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) da Capital. Os espaços atuam no acolhimento e recuperação de pessoas que enfrentam dificuldades relacionadas ao uso de álcool e outras substâncias psicoativas.
Apesar de alto, a coordenadora de Saúde Mental da SMS, Marta Fadrique, explica que o número não preocupa quem atua na rede. Isso ocorre pois, por exemplo, diferentemente de atendimentos em saúde que necessitam de internação, o acompanhamento feito nos Caps AD são considerados “cuidados em liberdade”. O modelo com serviços especializados, de portas abertas e que não exige internação surgiu na década de 1980 para substituir o antigo modelo manicomial, com restrição de liberdade, por um atendimento comunitário.
“Tem gente que vem aqui uma vez no mês, pois já está em uma situação mais estável. Tem quem vem a cada 15 dias para acompanhamento com os técnicos de referência para uma conversa. Tem quem vem algum dia da semana para participar de grupos de redução de danos. Tem quem trabalha em um turno e passa o outro aqui, para ficar em situação de risco de uso. E tem quem precisa ficar alguns dias aqui por estar em crise. É isso que faz com que o Caps AD possa atender tanta gente sem fila de espera”, explicou Marta.
Mesmo com as unidades de saúde sendo aptas a prestarem atendimento em saúde mental para casos de menor gravidade, as unidades do Caps AD são voltadas para atendimentos de pessoas com problemas decorrentes do uso de álcool e outras drogas, voltadas para adultos e adolescentes acima de 15 anos. Marta Fadrique destaca ainda que os atendimentos nessas unidades são feitos por equipes multiprofissionais, com profissionais da medicina, da psicologia, do serviço social, da fisioterapia e outras áreas.
“Uma das grandes facilidades desse tipo de acolhimento é do paciente ser bem recebido e ter imediatamente o cuidado que precisa. Entretanto, um dos desafios está na permanência e na continuidade do tratamento, pois é que algo não pode ser imposto. Outro é integrar o trabalho com outros setores, pois muitas vezes o paciente não precisa apenas de uma intervenção médica, mas também de assistência social, de moradia, de geração de renda e mais investimentos para sustentar uma vida digna e sobriedade. É uma política que, por mais que tenha protagonismo na saúde, precisa de outros atores envolvidos”, completou.
Segundo o secretário municipal de Saúde, Fernando Ritter, o enfrentamento ao uso problemático de álcool e outras drogas passa, necessariamente, pela compreensão das vulnerabilidades sociais presentes em Porto Alegre. “Temos um cenário desafiador, com aumento da população em situação de rua e regiões com altos índices de vulnerabilidade. Buscar apoio é um ato de cuidado e que a rede municipal está preparada para receber, orientar e acompanhar essas pessoas de forma contínua e humanizada”, salientou.
Recuperada após enchente, unidade é referência para Capital
Cerca de 10% dos pacientes atendidos em Caps AD em Porto Alegre foram registrados na unidade Caps AD III NHNI, que atende a região que compreende o Noroeste, Humaitá, Navegantes e Ilhas, referência para mais de 200 mil habitantes da Capital. O local não apenas ajuda na recuperação de seus pacientes como também é exemplo vivo disso.
Afetada pela enchente em maio de 2024, a unidade localizada na avenida Pernambuco foi reinaugurada em fevereiro de 2025 e tornou-se referência em termos de estrutura para o serviço de saúde mental em Porto Alegre. A unidade foi um dos primeiros Caps AD de Porto Alegre, funcionando inicialmente no IAPI.
Em 2019, a mudança ocorreu para o bairro São Geraldo, por conta da estrutura maior para o acolhimento do público. Conforme o coordenador do Caps AD III NHNI, Rodrigo Falcão Chaise, a unidade prestou mais de 2,6 mil atendimentos nos primeiros dois meses do ano, atuando na recuperação de mais de 400 usuários no período.
“Temos diferentes linhas de cuidado, que vão desde o atendimento individual, com escuta qualificada, até os atendimentos em grupos, com oficinas terapêuticas, grupos de redução de anos, de prevenção à recaída, além de oficinas variadas, como de escrita, leitura, arte, criatividade, horta e práticas corporais. Tem toda uma equipe multiprofissional para possibilitar esse cuidado integral dos pacientes”, explicou.
Outra característica da unidade NHNI, assim como de outros Caps AD que são III ou IV, é contar com leitos para acolhimento noturno. “É uma possibilidade para que o paciente possa ficar em leito enquanto realiza a reabilitação psicossocial, além de passar o período do dia no CAPS AD. Realizamos uma organização para que possamos atender as demandas de todos os usuários da região, garantindo equidade no acesso”, concluiu o coordenador.
