Os casos de câncer colorretal estão cada vez mais presentes entre os jovens. Foi a doença que matou a cantora Preta Gil em 2025, aos 50 anos, após ter sido diagnosticada em 2023. O tumor que atinge o intestino grosso, e que antigamente era recorrente entre os idosos, tem acendido um alerta preocupante nos últimos anos. A tendência é mundial, lembra Daniel de Barcellos Azambuja, chefe do Serviço de Coloproctologia do Hospital Santa Casa de Porto Alegre. "A gente tinha uma ideia de se fazer colonoscopia preventiva [exame indicado para rastreio] ao redor de 50 anos de idade, e, tanto nos Estados Unidos como aqui, já caiu para essa prevenção ao redor de 45 anos de idade".
Não há elementos exatos que justifiquem o motivo da crescente, mas há fatores de riscos sendo estudados. Entre eles, os maus hábitos alimentares, o consumo de álcool e o sedentarismo. O câncer é incidente tanto em homens quanto em mulheres, e tem uma das maiores taxas de mortalidade no país. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), a neoplasia é a terceira mais prevalente no Brasil, com cerca de 45 mil novos casos por ano. No Rio Grande do Sul, estado com as maiores taxas de mortalidade, de 2023 a 2025, foram 3.120 casos registrados pelo Instituto. Segundo levantamento da Secretaria Estadual da Saúde (SES), a estimativa de novos casos a partir deste ano até 2028 é de 3.690, um aumento de 18%.
Com a cor azul-marinho, uma campanha é realizada anualmente em março com o objetivo de alertar a sociedade para o tumor cancerígeno. A campanha tem origem nos anos 2000, nos Estados Unidos, onde a doença ocupa a segunda posição entre os cânceres mais comuns. No Brasil, a campanha é encabeçada pela Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva, Federação Brasileira de Gastroenterologia e a Sociedade Brasileira de Coloproctologia, especialidades que se dedicam ao tratamento e aos cuidados da saúde intestinal.
Sinais não devem ser ignorados, alertam especialistas
O médico da Santa Casa lembra que a população precisa estar atenta a qualquer sintoma da doença, já que ela pode evoluir de maneira silenciosa e passar despercebida. “Uma pequena dor abdominal, um pequeno sangramento, alteração do hábito intestinal, muitas vezes a alteração mesmo por um funcionamento melhor do intestino. O paciente que é constipado, por exemplo, e daqui a pouco o intestino começa a funcionar melhor, é uma mudança no seu hábito intestinal”, lembra. A atenção é essencial para conseguir diagnosticar precocemente a doença. O histórico familiar também é fator de atenção. “O paciente, às vezes, tem familiares com câncer, e tem que fazer uma prevenção mais ativa nesses casos”.
Principais sintomas do câncer colorretal:
- Sangramento nas fezes
- Alteração do hábito intestinal, como diarréia ou constipação
- Afilamento das fezes, ou mudança no seu padrão normal
- Emagrecimento
- Anemia frequente
De acordo com a Sociedade Americana de Câncer, é indicado o exame de colonoscopia a partir dos 45 anos, mesmo sem os sintomas. Como explica Rafael Dutra Vila, coordenador da Proctologia do Hospital Mãe de Deus e presidente da Associação Gaúcha de Coloproctologia, o procedimento é o que mais tem sensibilidade para identificar os chamados pólipos. "Ela permite não só identificar essas lesões pequenas, os pólipos, mas na grande maioria das vezes, ao identificar, a gente já consegue tratá-los no mesmo exame", diz.
Os pólipos são lesões que nascem na superfície interna do intestino grosso. Se não identificadas a tempo, tendem a crescer ao longo dos anos, podendo ser benigna, ou tornando-se câncer.
"Quando a gente fala nos exames preventivos, a gente quer tentar pegar nessa janela enquanto a lesão ainda é pequena, benigna e possível de tratamento. Sem necessidade de cirurgia, quimioterapia, e outras modalidades de tratamento que envolvem quando a gente está tratando uma doença já maligna" – Rafael Dutra Vila, coordenador da Proctologia do Hospital Mãe de Deus
O exame endoscópico examina o intestino grosso e identifica, durante o procedimento, os pólipos, maiores causadores de câncer. “Se a gente identifica durante o exame, a gente pode retirar e evitar que esse pólipo se desenvolva em câncer. Então, quanto mais precoce, mais em fase inicial a gente descobrir uma lesão dessas, maior a chance de cura”, complementa Daniel, da Santa Casa.
“Foi de uma hora para outra”
Os sinais são fatores de alerta, ainda que pequenos. Foi o que aconteceu com o advogado Breno Ferigollo. Ele, que sempre praticou esportes, como o triatlo, e alimentava-se bem, nunca havia notado algo de diferente até 2022. Na semana em que estava preparando-se com treinos para uma prova importante, notou sangramento em uma ida ao banheiro. Naquele momento, achou que havia se machucado ao pedalar. Mas não esperou, foi atrás de atendimento médico.
Ao realizar consultas e o exame de colonoscopia, descobriu que já estava com o tumor considerado avançado, em estágio 3. Ele tinha apenas 44 anos – ou seja, ainda não estava na idade indicada mínima para começar o exame preventivo de rastreio. “Foi realmente de uma hora para outra”, lembra.
Do diagnóstico até a cirurgia, feita no Santa Casa, passaram-se apenas 28 dias. Breno precisou retirar grande parte do intestino grosso. Após, também realizar quimioterapia oral, e ficou por dois anos em remissão da doença.
Tratamento
Nas lesões já avançadas para o tratamento por colonoscopia, o tratamento é cirúrgico, com grande possibilidade de cura, na retirada do segmento afetado pela lesão. Há casos em que é necessário o tratamento sistêmico também com quimioterapia, que foi o caso de Breno. Ele não precisou utilizar a bolsa de colostomia, que é necessária em pacientes que desenvolvem tumores na parte final do intestino grosso, próxima da musculatura do esfíncter, que permite ter a continência da evacuação. Ao retirar a musculatura junto, é necessário o uso definitivo de uma bolsa de colostomia, explica o médico do Mãe de Deus.
Prevenção evita o desenvolvimento do tumor
Para não correr o risco de descobrir a doença em estágio avançado, como seu caso, Breno dá apenas um conselho: fazer a prevenção. “Não precisa ter medo de fazer. É melhor descobrir e tratar antes, porque é um câncer muito silencioso”, diz. “Infelizmente, pessoas descobrem em estágios muito avançados e agressivos”, lembra.
Para Breno, a grande diferença que notou em seu tratamento foi não ter ignorado os sinais, e ter buscado atendimento médico no primeiro que o corpo deu. “Se eu tivesse ignorado esse sinal, daqui a pouco teria passado, levaria mais 1 ano. E aí poderia ser tarde. Não ignore os sinais do teu corpo”, ressalta. O advogado reconhece que não tinha muito conhecimento da doença, tampouco o costume de fazer exames periódicos.
A campanha reforça justamente isso, lembra o médico da Santa Casa. “O câncer de mama e de próstata, por exemplo, são amplamente conhecidos na sociedade. Mas a presença do de intestino vem numa crescente muito grande na nossa sociedade, e a conscientização da necessidade de prevenção é extremamente importante para a gente diminuir a incidência desse tumor”, pontua.
