Entre as mais de 6 mil doenças raras catalogadas pela pela Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai), a hipofosfatasia (HPP) ainda é pouco conhecida pela maior parte da população e, muitas vezes, também passa despercebida na investigação clínica. Além das dores crônicas e fraturas recorrentes, sinais como a fragilidade dentária (manifestada pela queda prematura dos dentes em crianças) podem indicar a presença dessa condição que, embora acompanhe o paciente desde o nascimento, pode levar décadas para ser identificada.
O que é a hipofosfatasia?
A HPP é uma doença hereditária que compromete o metabolismo ósseo e outros sistemas do corpo. De acordo com o médico geneticista Roberto Giugliani, professor titular da Ufrgs, líder de Doenças Raras da Dasa Genômica e diretor-executivo da Casa dos Raros, a condição é causada por uma alteração no gene ALPL, que resulta em níveis anormalmente baixos da enzima fosfatase alcalina (FAL), substância que tem papel essencial na mineralização óssea.
“Quando essa enzima não funciona bem, surgem problemas nos ossos, nos dentes e, em alguns casos, em outros órgãos também”, explica.
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As consequências mais visíveis incluem baixa estatura, deformidades ósseas e dores persistentes, mas a HPP é sistêmica. Segundo o especialista, a falta da enzima causa o acúmulo de substratos que podem se depositar nas articulações, gerando artrite aguda, ou nos rins, provocando a nefrocalcinose. O impacto atinge também a saúde emocional. A dor constante, uma das principais queixas de pacientes adultos, afeta a vida emocional e social de quem convive com a doença.
É importante ressaltar ainda que a doença pode se manifestar em diferentes fases da vida, da infância à idade adulta, com graus variados de gravidade. Os sintomas variam amplamente: em crianças, podem incluir atraso no desenvolvimento motor, fraqueza muscular, baixa estatura e perda precoce de dentes; já em adultos, são mais comuns dores crônicas, fadiga e fraturas recorrentes.
O desafio do subdiagnóstico
Apesar de um exame simples de sangue — a dosagem da fosfatase alcalina — ser capaz de levantar a suspeita, a HPP costuma passar despercebida. Giugliani esclarece que o erro é comum e reside na interpretação dos resultados, pois médicos tendem a prestar atenção no índice quando está alto (o que indica problemas hepáticos), mas costumam relevar quando ele está baixo.
Ademais, os sintomas são facilmente confundidos com os de condições mais populares, como fibromialgia e osteoporose, o que prolonga ainda mais a jornada do paciente até o diagnóstico correto. Estima-se que, no Brasil, haja menos de um caso para cada 100 mil habitantes, mas o especialista acredita que os números reais sejam maiores devido ao silêncio clínico.
A investigação envolve a análise do histórico clínico e familiar, exames laboratoriais, como a já mencionada identificação de fosfatase alcalina baixa associada ao aumento da vitamina B6, e, em alguns casos, testes genéticos para confirmação da alteração no gene ALPL.
A boa notícia é que já existe tratamento disponível para a doença. A terapia de reposição enzimática consiste na administração subcutânea de uma versão sintética da fosfatase alcalina, que assume a função que o organismo não consegue cumprir.
Os resultados, segundo o especialista, são “bastante animadores”. O impacto é especialmente expressivo em crianças, mas adultos também se beneficiam, ainda que a resposta possa ser um pouco mais gradual. “É uma condição muito limitante. Essas doenças afetam não só o paciente, mas a família como um todo”, complementa.
Origem genética e manifestações diferentes na mesma família
A hipofosfatasia não segue um padrão único, podendo surgir da infância à idade adulta com gravidades variadas. Por ser hereditária, a condição pode se manifestar de formas distintas em uma mesma família: pais podem carregar a alteração de forma assintomática, enquanto os filhos apresentam quadros mais graves. No diagnóstico tardio, em adultos, os sinais são mais sutis e progressivos, o que torna a investigação clínica ainda mais essencial.
O médico Roberto Giugliani reforça que a assistência a doenças multifatoriais como a HPP depende de uma rede de apoio estruturada. Em Porto Alegre, a Casa dos Raros oferece esse atendimento integral de forma gratuita, funcionando como um braço complementar ao SUS por meio de sua natureza filantrópica.
O atendimento reúne especialistas de diversas áreas para analisar cada caso e traçar o melhor caminho, agilizando o diagnóstico e o início da terapia. O objetivo é reduzir o tempo de espera do paciente, sanar suas dúvidas e estabelecer, o quanto antes, o caminho para o tratamento.
Entre julho de 2023 e o fim de 2024, 753 pessoas foram atendidas pela instituição. Para quem ainda não tinha diagnóstico, a resposta veio, em média, em 84 dias, o que representa um tempo muito menor do que os anos de espera que costumam acompanhar a jornada de quem convive com uma doença rara como a HPP.
