Uma dor associada a outros problemas e que acaba sendo, em muitos casos, ignorada por anos até mesmo por profissionais: isso é o que passam muitas mulheres com a endometriose. A doença se caracteriza pela presença do tecido semelhante ao endométrio, que reveste o útero, em outras regiões do corpo, fora da cavidade uterina. Segundo a Organização Mundial da Saúde, uma em cada 10 mulheres brasileiras vivem com a condição, que acomete 7 milhões. Os casos são mais frequentes entre os 40 e 50 anos de idade, mas também na adolescência. Em 2025, foram notificados 974 casos de endometriose no Rio Grande do Sul, de acordo com informações da Secretaria Estadual da Saúde (SES).
Apesar de não ser reprodutiva, a doença é uma das principais causas da infertilidade. Não só isso, mas também compromete a qualidade de vida das mulheres, já que os sintomas podem ser intensos. A campanha Março Amarelo tem o objetivo de estimular a população a conhecer mais sobre a doença e entender os sinais do corpo para buscar atendimento médico.
Casos de endometriose no Rio Grande do Sul
| Ano | Número de casos |
| 2020 | 453 |
| 2021 | 509 |
| 2022 | 673 |
| 2023 | 713 |
| 2024 | 700 |
| 2025 | 974 |
A ginecologista e obstetra do Hospital Moinhos de Vento, Raquel Dibi, explica que a doença pode ser totalmente assintomática, mesmo na presença do tecido anômalo. Porém, nos principais sintomas, estão a cólica menstrual intensa e progressiva. “Em geral, essa cólica começa na adolescência. Não é uma regra absoluta, mas em geral já é uma adolescente que vem com ciclos menstruais carregados de dor. Essa dor vai ficando pior a cada mês, e muitas vezes pode impactar na na atividade no colégio. É uma dor que não melhora com com qualquer medida”, detalha.
Além da cólica, outros sintomas são associados à doença, como dor ao evacuar, dor ao urinar e dor nas relações sexuais. “Não é normal ter uma dor que impossibilite as suas atividades durante o período menstrual”, salienta a ginecologista.
“É uma doença invisível”
Foi o que aconteceu com a professora Bruna Brasil, que descobriu a doença em 2018 após conviver com diferentes sintomas, que eram ignorados até mesmo por profissionais de saúde. Os primeiros sinais que o seu corpo deu foram com dores nas relações sexuais. “Na época, a resposta foi que era a anatomia do meu corpo, que eu era magrinha, e que a dor era natural”, disse. Em seguida, passou a ter sangramentos intestinais, que foram relacionados inicialmente à intolerância à lactose. Bruna também teve dores no período pré-menstrual e, durante a menstruação, elas eram tão intensas que provocavam vômitos e até desmaios. “Sempre fiz exames de rotina, como transvaginal e ecografia, e nunca apareceu nada”, diz Bruna.
“O que a gente mais escuta é isso, que é manha, é exagero. Porque é uma doença invisível, né?”, reconhece a professora. Ela chegou até a tomar medicamentos para não menstruar, mas as dores permaneciam. Assim, conseguiu relacionar que os sangramentos não tinham relação com a lactose.
Apenas muitos anos depois, Bruna teve seu diagnóstico de endometriose definitivo. O estado já era avançado, com 60% de obstrução do intestino e muitas aderências na pelve. “Toda a anatomia da pelve, tudo por trás da vagina, intestino, era cheio de endometriose”, relata.
Sobre as causas da doença, a ciência ainda não respondeu completamente. No entanto, já é comprovado que a genética é um dos fatores."Já foram identificados vários genes relacionados à endometriose, então, pode ter na família mais gente que tenha doença. Não quer dizer, mas pode, tem uma prevalência maior em quem já tem a doença na família", explica a médica do Moinhos de Vento. Há, ainda, discussões sobre exposição a meios industrializados.
Por isso, a importância de realizar exames de rastreio. O diagnóstico pode ser feito por meio de exames específicos. Entre eles, a ressonância nuclear magnética da pelve, assim como uma ecografia transvaginal, para ter uma boa abrangência dos órgãos acometidos pela endometriose, como o intestino, bexiga, ovário, útero, entre outros. O diagnóstico definitivo, muitas vezes, se dá por meio da videolaparoscopia, com visualização direta dos focos de endometriose, e já propicia o próprio tratamento, com a ressecção e a cauterização dos focos no momento da cirurgia.
Tratamento
A doença não é 100% tratada, mas controlada. Após a necessidade ou não de cirurgia, o tratamento consiste em ações para o alívio dos sintomas, principalmente com a adoção de hábitos de vida, com alimentação mais saudável e anti-inflamatória, explica Débora Espírito Santo, coordenadora do Núcleo de Ginecologia e Obstetrícia do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers). Além disso, também são indicados analgésicos para dor, e para o bloqueio da menstruação, com anticoncepcionais combinados de uso contínuo. Pode ser adotado, também, o uso de diu hormonal, que também interrompe o ciclo.
“Tento ter uma alimentação anti-inflamatória, evito produtos que estimulam a produção de estrogênio, escolha de produtos sem metais pesados. Tento controlar o sono, mantenho uma vida saudável e com menos estresse”, relata a professora, que hoje faz, regularmente, ressonância de pelve e ultrassonografia específica para monitorar a presença de focos.
Falta de informação retarda a busca pelo diagnóstico
Outro desafio passado pela professora foi relacionado à falta de apoio e informação. Ao buscar pesquisas, encontrou um grupo online de mulheres com endometriose, com mais de 20 mil membras, o que foi seu alento e fonte de mais informações sobre uma doença desconhecida, auxiliando-a na busca pelo melhor tratamento, que foi feito com cirurgia. “A falta de conhecimento e falta de procura, inclusive para os profissionais entre as mulheres que sofrem com dor, na verdade, é a naturalização da mulher como fraca, como dramática”, diz Bruna.
A coordenadora do Núcleo de Ginecologia e Obstetrícia do Simers corrobora com o argumento. “Principalmente com a cólica, que é algo meio que entendido como normal durante a menstruação para a maioria das mulheres. É importante que a gente fale sobre esses sintomas incapacitantes, sobre essa angústia para que a paciente procure ajuda e seja tratada”, diz.
Para a médica, as campanhas de conscientização auxiliam na busca pelo diagnóstico e para oferecer tratamento às mulheres que convivem com o sofrimento e saibam onde buscar ajuda. “Tudo isso alerta a gente para uma provável endometriose, e através de tratamento, a gente vai prevenir que isso se torne grave, e que uma sequela que daqui a pouco pode ficar com uma infertilidade que a gente não consegue mais reverter”, diz.
“A menstruação não tem que ser dolorida, a mulher não pode sofrer. Nem durante a menstruação, nem antes do período menstrual. Se tem alguma coisa que está fora, que te prejudica a vida, tanto profissional, quanto pessoal, seus relacionamentos, isso não pode ser normal, isso não pode ser normalizado”, afirma Bruna, que tratou a endometriose.
