A ocorrência de câncer depende de condições variadas. Um dos fatores de risco que pode facilitar o desenvolvimento de um tumor no organismo é a obesidade, doença crônica que atinge mais de um quarto da população brasileira, de acordo com levantamento do Ministério da Saúde.
O relatório do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde, mostra que, em 2024, 25,7% dos brasileiros já eram obesos – aproximadamente 41 milhões de pessoas. A análise também identificou que mais da metade da população estava acima do peso: 62,6% em 2024 – número que representa 20% a mais do que a quantidade observada no levantamento de vinte anos atrás.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), uma parcela relevante dos casos de câncer no País está associada ao sobrepeso e à obesidade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 13 em cada 100 casos de câncer no Brasil são justificadas pelo excesso de peso corporal.
As projeções do Atlas Mundial da Obesidade apontam que quase metade dos adultos estarão acima do peso até 2030 – cerca de 50% da população mundial adulta. O aumento dos indíces de obesidade e sobrepeso acende o alerta para o impacto que a doença causa no corpo, especialmente em casos mais graves como tumores.
Quais cânceres estão associados à obesidade?
A associação entre obesidade e câncer é multifatorial, como sugere o oncologista Mauro Donadio. “Do ponto de vista de saúde pública, a obesidade já se consolida como um dos principais fatores modificáveis de risco para câncer”, afirma o médico.
A Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à OMS, aponta a obesidade como fator de risco para pelo menos 13 tipos de tumores. Veja a seguir:
- Mama, especialmente na pós-menopausa
- Cólon e reto
- Endométrio
- Ovário
- Fígado
- Pâncreas
- Rim
- Esôfago
- Vesícula biliar
- Estômago
- Tireoide
- Mieloma múltiplo, na medula óssea
- Meningioma
Embora nem todos os casos dos tumores listados ocorram em pessoas com obesidade, o acúmulo excessivo de gordura corporal aumenta as chances, como explica o oncologista Mauro Donadio. “O tecido adiposo não é inerte. Ele produz substâncias inflamatórias e altera o equilíbrio hormonal do organismo”, aponta o médico.
“Não se trata apenas de peso na balança, mas de um desarranjo metabólico sistêmico”, afirma Mauro. Segundo o oncologista, a obesidade prejudica o organismo de diferentes maneiras. O estado de inflamação crônica provocado pela doença causa disfunção imunológica e, junto de alterações hormonais, cria um ambiente biologicamente mais favorável ao câncer.
Impacto da obesidade no diagnóstico e tratamento de câncer
A obesidade impacta negativamente o diagnóstico e a resposta ao tratamento. Pacientes com a doença são diagnosticados com câncer mais tardiamente, quando ele está em estágios mais avançados. Entre as razões para isso estão barreiras estruturais, como equipamentos inadequados para exames, e estigmas que dificultam o acesso e a continuidade do cuidado.
O tratamento oncológico é mais complexo nesse cenário. O excesso de gordura corporal pode estar relacionado a uma série de fatores: maior toxicidade e efeitos adversos da quimioterapia, maior resistência à radioterapia e complicações cutâneas, pior cicatrização e mais infecções no pós-operatório, redução da eficácia de hormonioterapia, mais efeitos adversos em imunoterapia. O risco de reincidência após um tratamento curativo é maior em pacientes oncológicos com obesidade.
Outro ponto crítico é a composição corporal. A perda de massa muscular, chamada sarcopenia, pode piorar a resposta ao tratamento e a qualidade de vida. Quando há combinação de obesidade e sarcopenia, o impacto tende a ser ainda mais significativo.
Tratamento da obesidade em pacientes com câncer
O tratamento da obesidade é multidisciplinar. Pode incluir reeducação alimentar, atividade física regular e medicamentos antiobesidade, quando indicados e sem interação com terapias oncológicas. O tratamento também deve ter acompanhamento psicológico.
A endocrinologista e consultora científica da Voy Karla Bandeira ressalta que, por ser uma doença crônica, a obesidade precisa de tratamento contínuo. “Não se trata de uma intervenção pontual, mas de uma jornada estruturada, com acompanhamento médico, orientação nutricional e suporte contínuo ao longo do tempo”, afirma
“O maior desafio não é apenas iniciar o tratamento, mas garantir a continuidade com segurança. Quando a pessoa enfrenta a jornada sozinha, as chances de abandono aumentam significativamente”, reforça a médica. Para Mauro, controlar o peso vai além da questão estética: “É uma estratégia concreta de prevenção oncológica e de melhora de desfechos para quem já enfrenta a doença”, complementa.
Mês da Conscientização da Obesidade
Sete em cada dez pessoas vivendo com obesidade no Brasil sentem-se frequentemente ansiosas em relação ao seu estado atual de saúde devido ao seu peso, segundo pesquisa do Instituto Ipsos divulgada no Dia Mundial da Obesidade, 4 de março, que integra as ações do Mês da Conscientização da Obesidade. O percentual de 71% é o mais elevado entre todos os quatorze países pesquisados.
O Estudo Global da Ipsos sobre a Percepção da Obesidade comparou as percepções de pessoas vivendo com obesidade (3.094) e de pessoas que não vivem com obesidade (11.406) em 14 países. No Brasil, 92% afirmam que seu peso impactou negativamente sua confiança e autoestima – mais do que a média internacional de 85%.
No entanto, a percepção negativa dos brasileiros tem impulsionado ações. Mais da metade (55%) das pessoas vivendo com obesidade no Brasil consultou um médico sobre seu peso no último ano, em comparação com cerca de um terço (35%) globalmente. Em relação aos que procuraram informações sobre controle de peso on-line ou através de amigos, o percentual chegou a 62% – o maior entre os 14 países, e acima da média global de 50%.
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