Associado principalmente ao desenvolvimento da bronquiolite em crianças, o vírus sincicial respiratório (VSR) também é uma ameaça silenciosa em adultos, especialmente o público de pessoas com mais de 50 anos de idade com comorbidades. O VSR, segundo estudos clínicos, pode causar até 2,7 vezes mais pneumonia do que o vírus da gripe. Ele também foi o responsável pelo maior número de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no Brasil no primeiro semestre entre 2023 e 2025, com 45,5% do total no ano passado.
Enquanto 1% das crianças com quatro anos ou menos com diagnóstico de SRAG e VSR morrem hospitalizadas, na população 50+ este número sobe para 14%. Outro estudo aponta que o risco de infarto é três vezes maior na primeira semana após uma infecção por VSR. Uma pessoa pode transmitir o vírus para até outras três, e há 22 vezes mais chances de transmissão entre crianças e idosos.
Diante do cenário preocupante, a boa notícia é a existência de uma vacina com adjuvante que previne quadros graves associados ao quadro, disponível por ora apenas na rede privada de saúde. No Sistema Único de Saúde (SUS), a ideia é incorporá-la nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIEs). No Rio Grande do Sul, existe um no Hospital Materno Infantil Presidente Vargas (HMIPV), em Porto Alegre. Mas a simples menção da vacina para o público adulto e idoso é ainda uma lacuna a ser superada.
Um estudo feito em oito países, incluindo o Brasil, e apresentado em São Paulo pela farmacêutica GSK, produtora do imunizante, mostrou que 31% dos adultos em risco desconhecem a própria sigla VSR, e 71% desta população não sabe que a vacina existe. “Mesmo com a alta taxa de circulação do vírus, a falta de conhecimento da existência de vacinas direcionadas ao VSR para população adulta constitui um sinal de alerta”, disse a infectologista Lessandra Michelin, líder médica de Vacinas da GSK.
Além dela, participaram da roda de conversa Maisa Kairalla, geriatra e coordenadora do Comitê de Imunizações da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG); Mucio Tavares, cardiologista e membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e Rosemeri Maurici, pneumologista e coordenadora da Comissão de Infecções Respiratórias da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT).
Recomendação pelas principais sociedades médicas
A vacina em si, de dose única, confere proteção superior a 30 meses, ou três temporadas do vírus, com efetividade de 76% na prevenção de hospitalizações. O pediatra infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), disse que 70% a 80% dos quadros de infecções respiratórias causadas pelo VSR ocorrem no outono e inverno, o que acende o alerta para a atual época do ano.
“Sabemos que o VSR, nesta população de maior risco, tem um agravamento maior, como hospitalização, muitas vezes sequelas e a morte. Estes idosos são indivíduos mais frágeis, com dificuldades cognitivas, já com uma doença cardíaca ou pulmonar, e que, ao serem hospitalizados e desenvolverem uma infecção destas, rebaixam sua condição de autonomia”, explicou ele. A vacina contra a infecção por VSR é recomendada pela SBIm é recomendada para pessoas 50+ com comorbidade e 70+ como rotina, e chancelada por diversas das principais sociedades médicas do país.
Mas o diagnóstico na população idosa é difícil, em parte porque, segundo os especialistas, ao contrário das crianças, que têm sintomas melhor identificáveis, adultos tendem a comparecer à emergência tardiamente, quando o vírus pode já estar consolidado no organismo. Os testes PCR precoces são raros, da mesma maneira. A pesquisa ainda identificou falhas na comunicação entre médico e paciente.
Morte de mãe alerta para importância da prevenção
Tanto no Brasil quanto na média global, 37% dos não-vacinados disseram que seu profissional de saúde “não recomendou” a vacina. Não ter informações suficientes foi apontado como outra barreira pelo mesmo percentual das pessoas que não haviam se imunizado. O médico Rodrigo Mendes, professor de Endocrinologia na Afya Universidade Unigranrio, também participou do lançamento da pesquisa e contou a história de sua mãe, que não foi vacinada e apresentava um histórico de tabagismo, enfisema pulmonar leve e hipertensão arterial controlada com o uso regular de medicamentos.
Em 2017, após apresentar sintomas de um resfriado comum, em 48 horas eles evoluíram para falta de ar e espasmo, e diante da piora, mesmo com o uso de corticoides e nebulização, ela foi para a UTI, onde recebeu o diagnóstico de infecção com VSR. Em paralelo, o filho do próprio médico, com dois meses de idade na época, foi internado na UTI pediátrica com bronquiolite grave. Tratado, ele conseguiu se recuperar e hoje vive normalmente, mas sua avó acabou falecendo.
“Se minha mãe tivesse tomado a vacina, como seria o desfecho dela? É inevitável esta reflexão a partir dos impactos que a doença traz”, salientou ele, destacando outro estudo do CDC que apontou que, quando médico e paciente concordam com a vacinação, a adesão é de 87%, caindo para 70% quando somente o médico recomenda, mas o paciente discorda. E quando somente o paciente concorda e o médico não, a adesão despenca para somente 8%. “Ser médico é bastante complexo, desafiador, gratificante também, mas eu acho que isto traduz muito da nossa responsabilidade”, salientou o endocrinologista, ainda destacando o papel da obesidade no agravamento desta infecção viral.
Tão desafiante quanto o diagnóstico é a desinformação e notícias falsas a respeito das vacinas, o que impacta na comunicação verdadeira. “Vivemos em tempos de doenças controladas, quando no passado eram um flagelo, como sarampo e pólio. Isto criou um ambiente de falsa segurança, ou seja, as vacinas foram vítimas de si mesmas, o que é paradoxal. Mas a prevenção de doenças tem sido muito melhor do que o tratamento. Não há ferramenta melhor na promoção da saúde do que as vacinas, e nem melhor presente que a ciência deu à humanidade”, salientou Kfouri.
Além da vacina, como prevenir o VSR
- Lavar ou higienizar as mãos com frequência, assim como limpar superfícies tocadas frequentemente;
- Cobrir a boca e o nariz ao tossir ou espirrar;
- Limpar e desinfetar superfícies de uso frequente;
- Ficar em casa quando apresentar sintomas e evitar contato próximo com pessoas doentes.
Fonte: Centers for Disease Control and Prevention (CDC)

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